quinta-feira, 8 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Augusto dos Anjos - Eu e Outros Poemas
BUDISMO MODERNO
Tome, Dr., esta tesoura e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contrato de bronca destra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contrato de bronca destra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
sexta-feira, 19 de março de 2010
Os Deuses E Os Homens Na Mitologia Grega
Ora , que ironia , nada mais humano na Mitologia grega do que os próprios deuses . Ironia ? Ou seria como defendeu o filósofo alemão Ludwig Feuerbach , segundo o qual a religião é uma projeção humana , a essência humana projetada sobre si mesma ? O que haveria de mais humano do que a luxúria insaciável de Zeus , que traçava deusas , mulheres humanas e até rapazes ? A homossexualidade era uma prática bastante comum na Grécia antiga , incentivada nos exércitos espartanos para estreitar os laços sentimentais entre os soldados ( tanto homens como mulheres ) para mantê-los mais unidos . E o que dizer dos bacanais entre a elite grega , nos quais os homens excediam sempre no consumo de vinho e se entregavam às práticas homossexuais ?
As traições também faziam parte do comportamento dos deuses . Basta lembrar do adultério de Afrodite , que traíra seu marido Héfestos , o deus ferreiro coxo , que de tão feio fora desprezado e abandonado por sua própria mãe , a deusa Hera . A cobiça pelo poder levou Cronos a usurpar o trono de seu pai Urano . Uma profecia revelava que o trono de Cronos , por sua vez , também lhe seria tirado por um dos seus filhos . O destino foi inevitável : Cronos foi destronado por seu filho Zeus , o qual passou a reinar no Olimpo .
Ora , quão humanos são os deuses em seus comportamentos . Seriam eles um reflexo dos comportamentos humanos , da natureza humana ( Se é que se pode falar em uma natureza humana , correndo o risco de cometer um pecado contra Sartre ) ?
Por outro lado , na mitologia grega os homens se situam como objetos passivos das ações dos deuses . Os deuses criam a humanidade para depois voltar a destrui-la - É o mito do eterno retorno , que nos apresenta uma História cíclica , uma repetição infinita . Os homens se relacionam intimamente com os deuses , os quais estão sempre rondando à espreita dos homens , atuando sobre sua sorte , sobre seus comportamentos ...
Na mitologia , o espaço e o tempo possuem um caráter sagrado . Se tomarmos como objeto de estudo os mitos Cosmogônicos ( que se referem à criação do Cosmos , do universo ) perceberemos quão distante é o tempo dos acontecimentos na mitologia grega . Trata-se de um tempo tão distante , que se torna incalculável . É um pseudotempo , um tempo não real . São os primórdios , " o princípio de todas as coisas " .
O espaço adquire um caráter sagrado , sendo o campo de atuação dos homens e dos deuses . É o lugar do teatro das relações . É o lugar dos feitos heróicos humanos e divinos , como a história de Jasão e os argonautas , os grandes feitos de Héracles , a luta entre Teseu e o Minotauro , a vitória de Zeus sobre o gigante Tifão , o castigo de Prometeu , acorrentado .
É nesse universo fantástico , místico e sagrado que se relacionam seres tão parecidos em seus comportamentos ( Os homens e os deuses ) . O que diferencia os deuses dos homens é a imortalidade e o poder de realizar feitos que transcendem as possibilidades humanas . Entretanto , os deuses estão permanentemente atuando sobre a realidade dos homens , colocando seu poder a favor ou contra eles . Atuando diretamente sobre o destino da humanidade , talvez não no sentido de modificar o destino , mas de facilitá-lo ou torná-lo mais difícil , de acordo com o jogo de interesses dos deuses .
domingo, 14 de março de 2010
O Realismo Político Em Nicolau Maquiavel - Resenha de O Príncipe .
Nicolau Maquiavel , nasceu em Florença em maio de 1469 , num período em que a Itália se encontrava fragmentada em pequenos Estados conflitantes entre si , o que os tornavam vulneráveis aos ataques dos estrangeiros . A Igreja Católica na Europa renascentista gozava de enorme poder econômico , político e militar , constituindo-se numa ameaça à soberania desses Estados . No século XIV a Península itálica foi palco dos conflitos entre os franceses , os aragoneses e os suíços . No final do século XV a Itália foi invadida pela França e , durante o reinado do imperador Carlos V , a maior parte do território italiano foi subjugado . No século XVI a Igreja Católica , apoiada por potências estrangeiras , entrou diversas vezes em conflito com alguns principados italianos . O papa Alexandre VI atraiu para a Itália a influência espanhola , o que fez com que os Estados italianos passassem a sofrer com a influência dos espanhóis . É , portanto , nesse contexto de rivalidades e ameaças que Maquiavel escreve O Príncipe .
O realismo político é um campo do saber que arroga para si um estatuto de cientificidade , no sentido de maior objetividade , de autonomia em relação aos juízos de valor . Dentro desta perspectiva , pode-se considerar o realismo político como bastante próximo do positivismo . Segundo Vilfredo Pareto ( Em seu livro Traité de Sociologie Générale , 1917 ) , " Realista é aquele que , por um lado , se coloca no ponto de vista da correspondência de suas afirmações com a realidade " e , por outro , considera as ações sobre a base de sua " utilidade social " .
O realismo político de Maquiavel tem um caráter bastante empírico , pois constrói suas formulações a partir da experiência vivida . Podemos expressar esse realismo político nas palavras do próprio Maquiavel quando ele escreve sobre a necessidade de " ir atrás da verdade efetiva da coisa , em vez da imaginação . Muitos imaginaram Repúblicas e Principados que nunca se viu nem se soube que fossem verdadeiros por serem tão diversos de como se vive para como se deveria viver " . Assim , o autor de O Príncipe alimenta suas considerações políticas através do estudo do passado - buscando nas regularidades históricas os exemplos que devem servir para orientar as ações políticas , bem como os exemplos a serem evitados - e da realidade presente , sempre se pautando pela racionalização das relações de poder .
Não obstante o embate entre o realismo político e as utopias , as ideologias e as práticas de absolutização dos valores , o realismo político não tem como seu principal objeto de estudo a análise e o desmonte das utopias e das ideologias , mas sim a busca pelo conhecimento da verdadeira dinâmica nas relações de poder . É a realidade política concreta com toda a sua mecânica de funcionamento que interessa ao realista político .
Maquiavel fornece a Lourenço de Médicis o modos operandi das relações de poder , as leis que estão na base das ações dos homens de poder e que fundamentam seus comportamentos , os procedimentos necessários para a manutenção desse poder , livrando o Estado tanto das ameaças internas como dos inimigos externos . A guerra ocupa um lugar central nas preocupações de Maquiavel , sendo um tema que perpassa todo o livro , o qual o autor conclui com uma convocação às armas pela libertação da Itália . Neste sentido , podemos afirmar que a política é luta que tem como fim o poder e como meio a força . Pois o campo das relações de poder nos aparece como um espaço de permanente disputa , ainda que nem sempre pela força , embora deva-se recorrer a esta sempre que necessário . A guerra é uma realidade que para Maquiavel não pode ser evitada , apenas adiada e deve constituir o objeto por excelência das preocupações e práticas dos governantes .
Entretanto , não são apenas as ameaças externas que devem ser objeto de preocupação dos governantes . A manutenção dos problemas internos dos principados se apresentam como de fundamental importância para a conservação do poder . Sendo imprescindível uma habilidosa política de alianças entre o príncipe e seus súditos , sejam eles nobres ou a grande massa do povo . Desse equilíbrio de forças dentro e fora do Estado , depende a estabilidade do poder . O príncipe deve manter a coesão interna para que possa contar com o apóio dos súditos em épocas de dificuldades , de guerra . E deve fazer alianças externas que possam fortalecer e defender seu poder .
O jogo entre o público e o secreto é outra ferramenta da maior importância nas mãos dos governantes . É o campo das simulações e dissimulações . Para Maquiavel se o príncipe não possui certas virtudes , ele deve ao menos simular tê-las , obviamente em público . Aqui se estabelece o jogo das aparências , pois o povo se agrada dos governantes virtuosos , que possuem qualidades como a clemência , a lealdade , a religiosidade , a caridade ... etc . O príncipe deve sempre aparentar possuir tais qualidades , mas estar sempre disposto a passar por cima de todas elas quando necessário para a preservação do seu poder . O príncipe deve possuir as duas naturezas recomendadas por Maquiavel - a da raposa , para identificar e fugir das armadilhas e a do leão para impor o medo pela força . Os que se limitam a ser apenas leão não conseguem governar , sendo necessaria a astúcia e a esperteza da raposa .
Mas seria possível falar de uma moral no pensamento político de Maquiavel ? Sim . Entretanto , não numa moral cristã . Maquiavel defende em favor do Estado uma autonomia em relação à religião ( ou a Igreja ) , devendo esta última estar sujeita ao Estado . No entanto , Longe de ser um imoral , Maquiavel seria , digamos , um amoral . Um filósofo que defende a autonomia política em relação ao conjunto dos valores moraes , no caso , os valores cristãos . Neste sentido , a moral ( a Ética ) que encontramos em Maquiavel é a razão de Estado , uma ética que tem como moral suprema a auto-conservação do Estado .
Vivemos em uma época em que em virtude das crises das utopias e do descrédito das ideologias , tem se formado um clima favorável ao avanço do enfoque realista dos problemas políticos . Nesse sentido , podemos perceber a atualidade de algumas idéias de Maquiavel , contidas em O Príncipe . Obviamente , vivemos em um período específico da história , diferente daquele em que viveu o filósofo italiano , mas as formulações que podemos encontrar em Maquiavel nos ajuda a pensar a dinâmica nas relações políticas atuais , as várias faces do jogo político , das disputas pelo poder , da dialética entre o público e o privado , a busca pela compreensão da realidade concreta que permeia a engrenagem que move as ações dos governantes .
Assinar:
Comentários (Atom)