No Brasil, o sistema político foi construído sobre as bases dos interesses dos grupos oligárquicos que foram se formando ao longo da trajetória política brasileira, sob o signo da violência, da escravidão, da exclusão social, do genocídio, da apropriação privada do poder de punir e da forte concentração de renda e das terras brasileiras nas mãos dos grupos de poder dominantes. Com o fim da Era Vargas (1930 - 1945), inicia-se no Brasil a chamada República Liberal que durará até o golpe de 64. A República Liberal levou o país a um processo de experiências democratizantes, com o combate à corrupção e às fraudes políticas que ocorriam nos processos eleitorais. Obviamente, não se trata de uma experiência democrática plena, mas de um processo de democratização que só será interrompido com o golpe de Estado que instaurará o regime ditatorial no Brasil. Uma prática política ganhou grande vulto no Brasil durante esse período, o Populismo caracterizou a cultura política brasileira durante a República Liberal, levando a classe política a disputar de maneira mais acirrada os votos da população.
Com o esfacelamento dos currais eleitorais nos moldes tradicionais, com o fim do chamado voto de cabresto, com a implantação do voto secreto e com a paulatina melhoria da fiscalização dos processos eleitorais, tornava-se cada vez mais necessária a aproximação entre a classe política brasileira e a massa da população, o voto passou a ser mais disputado e mais caro de ser comprado. O discurso político incorporava os interesses das camadas populares, conquistando a adesão da população que passava a fornecer base de apóio eleitoral aos políticos cujo discurso estivesse alinhado aos interesses do povo.
Com o golpe militar de 1964, esse processo democratizante é interrompido, mergulhando o país num longo período de autoritarismo, de cassação dos direitos políticos, de repressão e censura. Com o processo de redemocratização do Brasil a partir do término do regime militar, ocorre o retorno da consolidação da democracia brasileira. A questão aqui é discutir essa democracia, esse sistema que talvez esteja ainda na infância no cenário político brasileiro, em vias de maturação e consolidação. Embora se possa afirmar a consolidação das instituições políticas brasileiras em suas três esferas de poder - Executivo, Legislativo e Judiciário - a questão é a problemática da representatividade política da população. Problematizando a questão, como se pode falar em sistema democrático de governo em um país que possui uma das maiores concentrações de renda no mundo, com acentuada desigualdade social e concentração de terras - herança de séculos de formação e consolidação de uma estrutura agrária fundamentada no latifúndio?
Embora as instituições políticas no Brasil estejam fortalecidas, elas vivenciam uma situação de descrédito por parte da população, crise gerada por escândalos de corrupção em todas as esferas de poder, crimes de colarinho branco que via de regra ficam impunes, "representantes" políticos que não realizam as reformas necessárias para procurar de forma mais consistente promover uma transformação social, política e econômica profunda no Brasil. O corporativismo dentro das instituições públicas brasileiras é outro fator que leva a classe política a permanecer leal a seus pares às expensas da traição dos verdadeiros princípios democráticos e dos interesses do povo brasileiro.
Uma das grandes armadilhas da democracia moderna: seu caráter indireto, "representativo". Já advertia o filósofo Jean-Jacques Rousseau (séc. XVIII), que o poder (a soberania) é intransferível. Segundo Rousseau, os governantes são agentes da vontade soberana do povo, não são se quer representantes dessa vontade, apenas executores da decisão popular. A vontade do povo jamais pode ser alienada ou representada, apenas executada.
As bases do sistema político brasileiro estão assentadas nos interesses dos grupos dominantes, daqueles em cujas mãos encontra-se o poder econômico e, por consequência, o poder das decisões políticas. Não interessa se o presidente da república seja de um partido de esquerda ou de direita, terá sempre que se curvar diante do sistema que aí se encontra estabelecido. São as regras do jogo. Onde está a tão necessária reforma tributária, para aliviar o fardo do povo brasileiro tão castigado e explorado com os pesados impostos? Por qual motivo o setor financeiro vem sendo o que mais lucra no Brasil às custas do pagamento dos juros da dívida pública - para se ter uma idéia, o orçamento previsto para investimento no país em 2011 é de cerca de R$ 20 bilhões, enquanto esse mesmo setor público irá pagar apenas de juros aos bancos em 2011 mais de R$ 230 bilhões - e os juros continuam aumentando - (fonte p/ pesquisa: Valor Econômico) ? É a farra com o dinheiro público - do povo. É o que se poderia chamar de Bolsa Banqueiro, bem mais predatório que o Bolsa Família. Onde está a representatividade política dos interesses do povo?
A participação política do povo brasileiro começa e termina nos períodos eleitorais, nossa "democracia" se limita a permitir que a população escolha seus candidatos. Dali pra frente o destino da nação está fora do controle, da fiscalização e até na contramão da vontade popular. Como alguém disse certa vez: o povo brasileiro jaz anestesiado na mesa de cirurgia - sem reação! A democracia brasileira seria uma ilusão, uma demagogia ou estaria mesmo em vias de consolidação? Seria preciso acabar com essa idéia de que poderemos mudar o país nas urnas? Além das urnas existe toda uma estrutura de relações de poder que emperra a soberania da vontade popular e que não se encontra confinada no interior das instituições políticas, mas que mantém laços de interesses estreitos com elas.
É preciso modificar a concepção de democracia no Brasil, pensar a democracia num sentido mais amplo e repensar nossa idéia de representatividade política. Necessário será questionar as propagandas demagógicas de que o Brasil é um país de todos. Questionar nosso sistema de governo "democrático" e desconstruir os discursos que ludibriam a população com a idéia de que o destino do Brasil está nas urnas. É a velha, mas prazerosa atividade filosófica (para concluir com outra herança grega: a Filosofia): questionar e desconstruir os discursos, os efeitos de verdade que tentam exercer sobre nós...